Registrada em 06 de abril de 2009

A ALACIB é uma Associação Literária sem fins econômicos, com sede e foro em Mariana, Minas Gerais, CNPJ 10778442/0001-17. Tem por objetivo a difusão da cultura e o incentivo às Letras e às Artes, de acordo com as normas estabelecidas no seu Regimento. Registrada em 06 de abril de 2009.

Diretoria da Academia de Letras, Artes e Ciências Brasil
Presidente: Andreia Aparecida Silva Donadon Leal
Vice-Presidente: J.S. Ferreira

Secretário-Geral: Gabriel Bicalho
Tesoureiro: J. B. Donadon-Leal
Promotora de Eventos Culturais: Hebe Maria Rôla Santos
Conselho Fiscal e Cultural: José Luiz Foureaux de Souza Júnior, Magna das Graças Campos e Anício Chaves

Acadêmico GERSON LUIZ ROANI
Cadeira nº 28
patrono: José Saramago


 

Notas Biográficas de Gerson Luiz Roani

Gerson Luiz Roani é Professor Adjunto de Literatura Portuguesa no Departamento de Letras da Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Licenciou-se em Letras pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul. É Doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Desenvolve e orienta pesquisas relacionadas à área dos estudos literários portugueses. É autor dos livros: O romance português contemporâneo: história, memória e identidade (PPGLET-UFV), Saramago e a escrita do tempo de Ricardo Reis (Scortecci Editora), No limiar do texto: literatura e história em José Saramago (Annablume), Literatura e Judaísmo: o rosto judeu de Borges (Editora da UFRGS), Intertextos no barroco brasileiro (Editora da URI) e também co-autor do livro Memória da narrativa: olhares sobre os clássicos (Navona Editora). Seus interesses de investigação incidem sobre a Literatura Portuguesa contemporânea. Atualmente, como bolsista de Estágio Sênior da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), realiza estágio de Pós-Doutoramento na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

Discurso de Posse

Minhas Senhoras e Meus Senhores:
Todo romance é isso, desespero, intento frustrado de que o passado não seja coisa definitivamente perdida. Só não se acabou de averiguar se é o romance que impede o homem de esquecer-se ou se é a impossibilidade do esquecimento que o leva a escrever romances.
José Saramago,
História do Cerco de Lisboa

Antes de render a merecida homenagem ao patrono da cadeira de 28, dedicada ao Prêmio Nobel de Literatura, José Saramago, permitam-me saudar a mesa aqui constituída e que preside essa cerimônia solene da ALACIB - Academia de Letras, Artes e Ciências Brasil, sede Mariana...
Em primeiro lugar, saúdo a presidente da ALACIB, a escritora, artista plástica e estudiosa, Andreia Donadon Leal. Registro também uma saudação muito especial e muito cordial aos insignes poetas desta José Benedito Donadon Leal, Gabriel Bicalho e JP Ferreira pelo magnífico trabalho de divulgação da poesia mineira e brasileira através de uma forma poética inteiramente nova, as aldravias. Com carinho, saúdo também o Dr. Gilberto Madeira Peixoto, que compartilha comigo desta sessão solene ao tomar posse na cadeira de número 29, que tem por patrono o insigne médico e cientista brasileiro Carlos Chagas.
Modestamente registro o meu reconhecimento pela ALACIB por ter aceitado a minha candidatura à cadeira dedicada a um dos grandes amores da minha vida, a obra do notável escritor português José Saramago. Trata-se de uma distinção que muito me
comove, me honra e me ultrapassa, pois esta cadeira seria assumida com muito mais dignidade por outros saramaguianistas brasileiros. Os bons augúrios, porém, teceram o caminho a meu favor. Resta, pois continuar o meu diálogo com Saramago, agora, na ALACIB. Diálogo que eu já venho mantendo, ao longo dos últimos dezoito anos, através de pesquisas acadêmicas, de orientações de pós-graduação e de uma série de publicações acerca do genial autor de Ensaio sobre a cegueira. Não creio que essas minhas publicações acerca da obra de Saramago tenham trazido algo de novo ao conjunto de estudos sobre tão grande autor. Todavia, registro o inegável amor com que redigi cada texto acerca de inúmeras obras desse autor, que carinhosamente chamo de Dom José.
Como não poderia deixar de ser, dirijo uma saudação muito especial ao Prof. Dr. José Luiz Foureaux de Souza Júnior, cujas palavras generosas a mim dirigidas só são explicadas pela força da amizade e do respeito que nos une há quase vinte anos de convivência. Sinto-me, meu caro Prof. Foureaux honrado por ter sido seu aluno na Universidade Federal de Santa Maria, RS e honra-me muito mais tê-lo como o amigo paciente, com pendor para a escuta psicanalítica dos meus achaques e desatinos. Aplaudo também o lançamento do livro, MAKANCEVA 14 – relatos ficcionais, que também será lançado neste dia. Ensaísta brilhante, teórico literário arguto e competente, José Luiz Foureaux continua, a partir desta obra, um percurso ficcional que já havia iniciado com os Cadernos de Viagem. São raras as pessoas que como o Prof. Foureaux conseguem colocar afeto integral e genuíno nas relações humanas. Sou um ser humano melhor por poder conviver e dialogar contigo.
Nas academias, as solenidades de posse são atos de rememoração dos feitos e das obras dos patronos que presidem as cadeiras que os novos acadêmicos assumirão. Por outro lado, são também a recuperação de elos luminosos, luminescências da vida do novo acadêmico. Nesse sentido, minha fala pronuncia a memória, sempre em mim presente, de José Saramago, mas também da minha família que acompanha, sobre as terras de trigo e vinho do RS, a posse do filho e o abraço carinhoso que a terra de Minas Gerais lhe dá. Posso afirmar, que o dia de hoje consagra minha adesão definitiva à mineiridade ao ser honrado com a posse em uma academia de Letras mineira, que continua e consagra a tradição das academias árcades do século XVIII, responsáveis pelo aparecimento de autores como Cláudio Manuel da Costa, Tomás António Gonzaga, Basílio da Gama, Sousandrade, Alfonsus de Guimaraes e outros que se constituem hoje como um patrimônio literário comum do Brasil, de Portugal e da África de Língua portuguesa.
Ao estabelecer em seu seio uma cadeira dedicada a José Saramago, a ALACIB faz uma ínclita homenagem a Portugal, país irmão e berço de inúmeras manifestações artísticas e culturais da nossa terra. Isso é algo que também me comove. Assumo uma cadeira, dedicada a um escritor português, em uma cidade mineira, Mariana, na qual a herança portuguesa emerge nas suas ruas sinuosas, na talha dourada das suas Igrejas, na voluptuosidade dos anjos barrocos das suas arcadas, nos sons renascentistas do órgão da sua Sé dedicada à Virgem, nas portas e janelas com treliças mouriscas que espiam as ruas, na azulejaria portuguesa de casarões e igrejas que confere às cidades históricas um toque e uma luminosidade de seda. Em Minas Gerais, há um mundo que o português também ajudou a construir no contato com outros substratos constitutivos do que viria a ser o povo brasileiro. A cadeira dedicada a Saramago homenageia Portugal. Em nome dos meus amigos portugueses e da memória de tão insigne autor, só poço agradecer a iniciativa desta Academia.
Passo a uma síntese do percurso escritural do patrono da Cadeira 28, que imerecidamente assumo e que espero honrá-la enquanto viver.
José Saramago é considerado hoje um dos mais expressivos escritores do romance português contemporâneo, se constituindo um caso invulgar de reconhecimento de público e crítica, tanto em Portugal, quanto no estrangeiro e particularmente no Brasil. A concessão do Prêmio Nobel pela Real Academia da Suécia só veio consolidar esse reconhecimento. O projeto literário de Saramago possui, como menciona Carlos Reis (2006), uma clara inserção pós-modernista, perceptível através da presença de alguns temas, estratégias discursivas e atitudes ideológicas de natureza crítica e contestatória, que atribuem a essa ficção um caráter nitidamente combativo.
A consagração de Saramago, como escritor, deu-se tardiamente, após a publicação em 1977, de Manual de Pintura e Caligrafia e, em 1980, de Levantado do chão. Antes desse período, o escritor genial já começava a despontar em um primeiro romance, de feição muito tradicional, realista por assim dizer que é Terra do pecado, de 1947. Obra que teve vida curta e sem memória. Só recentemente publicado, após a concessão do Nobel de 1998. Só trinta anos depois do aparecimento de Terra do pecado é que o romancista publica um novo texto de ficção, Manual de pintura e caligrafia, de 1977. Nesta obra delineia-se o trajeto de um protagonista-artista, pintor medíocre e escritor que vai surgindo em diálogo com gêneros e textos que, nele estruturam, em regime metaficcional, uma consciência estética e uma atitude crítica perante o mundo, desembocando no estímulo à sua representação pela escrita, na data libertadora de 25 de abril de 1974 (cf. ARNAUT). É essa noção de percurso escritural que irrompe na voz do narrador e que exemplifica aqui o modus operandi da escritura de Saramago:
Escrever não é outra tentativa de destruição, mas antes a tentativa de reconstruir tudo pelo lado de dentro, medindo e pesando todas as engrenagens, as rodas dentadas, aferindo os eixos milimetricamente, examinando o oscilar silencioso das molas e a vibração rítmica das moléculas no interior dos aços.

A vida profissional ajuda a explicar uma espécie de delineamento da obra de Saramago. O autor foi jornalista e cronista, como atestam livros de crônicas tais como Deste mundo e do Outro de 1971 ou a A bagagem do viajante (1973). Essas crônicas revelam uma postura muito atenta aos problemas sociais contemporâneos de Portugal, bem como uma aguda e impiedosa observação do cotidiano
que os romances posteriores desenvolveriam. Além de jornalista reconhecido, o Saramago dessa fase inicial também foi poeta. Dizem alguns críticos, que autor do “pior livro de poesia” já escrito em língua portuguesa O ano de 1993. Prefiro pensar que as crônicas e livros de poemas como Os poemas possíveis, Provavelmente Alegria e O ano
de 1993 constituem um preparar dos instrumentos ou fase de aprendizagem do artista.
A afinação do artista começa a melhorar com a publicação das narrativas curtas de Objeto Quase (1978), cujos temas prefigurarão os romances e com a publicação de uma narrativa de viagem (Viagem a Portugal, 1981). Esse conjunto de obras traduz, ainda, uma feição do escritor que as obras posteriores só sublinhariam: o envolvimento com a vida política portuguesa e internacional. Saramago esteve ativamente envolvido na vida pública de Portugal, desenvolvendo, depois da Revolução dos Cravos de 1974, uma militância política intensa e em harmonia com a abertura democrática trazida pelo vermelho dos cravos de abril, que pôs fim a uma ditadura, a de Salazar, de quase cinquenta anos.
Na parábola de suas realizações ficcionais, José Saramago destaca-se pelo desenvolvimento de um dos mais significativos projetos ficcionais da literatura portuguesa da atualidade. A densidade e a complexidade dos seus romances seduzem o leitor dessa ficção, envolvendo-o nas artimanhas e urdiduras de um texto construído como um artifício ou jogo da linguagem, tornando-o participante de um processo de ficcionalização da história e apelando para a cumplicidade do leitor, através de um exercício narrativo irônico que infringe e subverte as formas e os valores tradicionais, tanto no âmbito da história, quanto no da ficção romanesca (HUTCHEON, 1991: 21).
Nascido no Ribatejo, em 1922, a transformação no escritor que as décadas seguintes viriam a confirmar está diretamente ligada à instabilidade dos acontecimentos e da atmosfera pós-revolucionária, em Portugal. Comunista, Saramago era o diretor do Diário de Notícias, o mais importante jornal português, quando foi demitido em 1979. Acerca dessa relação do momento pós-revolucionário com a sua obra, em uma entrevista concedida a Baptista-Bastos, o autor diz que:
Como escritor penso que sou, não direi consequência, mas na verdade há uma relação entre o que fiz e aquilo

que aconteceu, a passagem da ditadura à liberdade e à democracia. Creio que nada ou quase nada daquilo que eu fiz depois, podia ter sido feito antes. O que não se pode é falar de uma espécie de relação direta de causa e efeito: acontecer aquilo. É certo que do ponto de vista da necessidade de rever ou revistar a história, a cultura, as tradições, ou os costumes, maneiras de viver que são nossas, creio que têm uma relação directa com essa mudança súbita de uma situação apodrecida de 50 anos de ditadura fascista para a passagem para a situação nova – que naquele momento não imaginávamos que viesse a dar naquilo que deu. Mas há também aquilo que se pode chamar a importância, não direi dos factores pessoais, mas das decisões que uma pessoa toma, numa circunstância determinada da sua vida. Evidentemente que, se depois do 25 de novembro, eu não tivesse decidido averiguar até que ponto poderia chegar como autor de livros, esses livros não teriam existido e isto, que parece uma redundância, e certamente o é, explica-se melhor se eu disser que se tivesse, depois do 25 de Novembro, procurado e encontrado um emprego onde me sentisse economicamente estável, as condições para o trabalho que vim a fazer depois talvez não se verificassem. Foi exactamente o ter assumido a situação de desemprego em que me achei que me levou a dizer: agora vou viver conforme puder e vou tentar ver o que sou capaz de fazer. Há aqui, concomitantemente, dois aspectos: o 25 de abril, com tudo aquilo que significou, deu-me a possibilidade de olhar para todas essas coisas, com um olhar novo, se se quiser, ou com o meu próprio olhar. E também essa decisão pessoal de criar as condições em que o trabalho iria decorrer (SARAMAGO apud BAPTISTA-BASTOS, 1996: 27-28).

Nesse depoimento, Saramago sublinha a estreita relação entre a sua trajetória de romancista e o rumo das transformações trazidas pela Revolução de 1974. Importa destacar
que o ano seguinte, 1975, foi o ano ardente da revolução. Em novembro, ocorreu a contra-revolução, conduzindo ao poder facções de direita. Sua postura comunista, à frente do Diário de Notícias, ocasionou a sua demissão. Sem emprego, ficou-lhe a vocação literária, já comprovada por uma série de publicações cobrindo o período de 1966 até 1977. Anteriormente à década de oitenta, quando o autor começa a percorrer as sendas da produção romanesca, José Saramago havia incluído já o seu nome no quadro dos escritores portugueses conhecidos, por intermédio da publicação de alguns livros de poesia lírica e de peças de teatro.
Desde que publicou Manual de pintura e caligrafia, Saramago abriu uma vasta reflexão sobre questões fundamentais do ser humano, da sociedade e da literatura do seu tempo. Por exemplo, a questão da representação artística e a responsabilidade do sujeito que a realiza. Outra questão que emerge com fulgurância na obra saramaguiana: a luta secular do ser humano contra a opressão, vivida ao longo dos séculos e interseccionada com os movimentos da história. A problematização da história vem a ser, então, um aspecto central da ficção saramaguiana em harmonia com uma intensa reflexão de natureza metaficcional sobre a escritura da História e principalmente sobre aquela grande zona de silêncios e lacunas, nas quais o romancista pode se espraiar à vontade. Significa isto que em Levantado do Chão (1980), em Memorial do convento (1982), em O ano da Morte de Ricardo Reis (1984) em História do cerco de Lisboa (1989) a presença de cenários históricos decorre, como afirma Carlos Reis (2006), de uma dupla emergência. Por um lado, a que consiste na manifestação de eventos, personagens e lugares históricos que sobem à superfície da ficção com muita naturalidade. Por outro lado, a emergência da história leva a repensar esses eventos, figuras e lugares à luz de uma nova realidade histórica, que não nega uma ideologia marxista. Deste modo, os avanços e recuos da Primeira república portuguesa, os incidentes da sucessão de Dom João V, que levam à construção do grande convento palácio de Mafra, o advento e consolidação da ditadura de Salazar, as execuções pela Inquisição, a conquista de Lisboa aos mouros, enquadram o devir das histórias contadas, que nada mais do que a história como acidente. No caso de uma obra como Memorial do convento, vislumbra-se a tentativa de escrever a história do ponto de vista dos oprimidos. Entra aí o olhar de um ficcionista que se rebela contra uma atitude histórica que atribui ao rei Dom João V a construção do Convento de Mafra. A narrativa questiona uma sintaxe comprometida com o poder vigente e se propõe a resgatar o papel dos esquecidos pela história, os pequenos que a suportaram e foram esmagados por ela. A escrita torna-se o memorial dessa revisão crítica. Já não são as grandes figuras da história política que assumirão o caráter de protagonistas, mas os pequenos, cujos segredos serão guardados por duas das mais instigantes personagens saramaguianas: Baltasar e Blimunda. Serão eles que guardarão os segredos e dores dos humilhados, dos banidos, perseguidos e condenados. A leitura do passado é modificada, pois o narrador deixa emergir os novos heróis do povo. Nomeia-os, quando a história oficial e vitoriosa tenta encobrir seus nomes.
O destino das personagens saramaguianas é indissociável do devir de uma história que a ficção repensa, tanto em função do passado propriamente histórico, como até em função do futuro. É isso o que acontece com um livro que é a Jangada de Pedra, a partir de uma estranha fratura geológica que separa a Península Ibérica da Europa, originando uma perspicaz indagação sobre a identidade portuguesa e sobre o destino de Portugal. Em outros casos, tais como o Evangelho segundo Jesus Cristo (1991) e Caim (2009), Saramago problematiza temas e figuras religiosas em conexão com preocupações como o sentido da culpa, a responsabilidade moral do ser humano, a relação com Deus. Em quase todos esses romances, a ficção convoca procedimentos de análise que a ironia, a paródia e de episódios mitificados na cultura portuguesa e na cultura ocidental.
Nas obras mais recentes, Ensaio sobre a cegueira, 1995, Todos os nomes, 1997; A caverna 2000, O homem duplicado 2002, Ensaio sobre a lucidez 2004, As intermitências da morte 2005, a Viagem do elefante 2008 e Caim, de 2009, Saramago adere a uma temática de escrita condicionada pela projeção internacional que a sua obra alcançou, o que leva ao abandono de temas e figuras, bem como de episódios relevantes do imaginário cultural português. É uma renovação da escrita, na qual o estilo de Saramago reajusta-se a um discurso mais sóbrio e mais direto do que aquele que caracterizava romances como Memorial do Convento ou o Ano da Morte de Ricardo Reis. A condição humana, com suas fragilidades, com suas duplicidades, com os seus egoísmos e com suas crueldades é agora um dos sentidos mais visados por Saramago, em conjunção com uma preocupação ética, que o escritor projeta na sua ficção. Junta-se a isso uma visão cética e pessimista da relação do ser humano com o outro e com a organização do mundo, visto como absurdo, desequilibrado, bárbaro e incivilizado.
Como leitor-cúmplice dos romances de José Saramago, rendo-me à voz de um narrador colocada a serviço de um saber imemorial, que não renuncia ao alargamento do presente e a uma solicitação de diálogo efetivo com o leitor contemporâneo, pois o romance é um artefato inconcluso, cumprindo o seu destino como um palimpsesto, no qual são combinadas outras obras, leituras e afinidades eletivas. Essa consciência do fazer literário alimenta o processo da escritura, apontando a provisoriedade do discurso e a reescrita da literatura e da história sob uma ótica renovadora. A ficção de Saramago empreende uma leitura crítica do passado português e aponta para um futuro lusitano que ainda está por delinear-se.
A obra literária reinventa-se a cada leitura, à custa da tensão entre o esquecimento e a memória. No fim do percurso desse discurso, não creio em posições fechadas, definitivas e conclusivas sobre o autor aqui elogiado, mas sim em respostas latentes. Isso não anula a fulgurante grandeza do texto de José Saramago, que continuará aberto para novas e estimulantes discussões
sobre os caminhos da vida e da arte, da literatura e da história. Tal intenção sempre deve levar em conta que a literatura nada mais é do que a arte do esconder e do desvelar. Aqui, pois, uma literatura inteira acaba, principia e espera. Essa espera reitera a certeza de que as palavras da narrativa nunca caem no vazio de maneira irreversível, mas nelas brilham inúmeras luzes, acenando com novos caminhos para o ser humano e devolvendo o sentido último das hesitações próprias da nossa atribulada trajetória existencial: sobreviver e continuar existindo, apesar de tudo.



Edição em 30 de janeiro de 2019 por J. B. Donadon-Leal