A
esperança não morre
Andreia
Donadon Leal
2009
despediu-se com muitas chuvas e famílias desabrigadas. 2010 mal
chegou e as tragédias climáticas prosseguem com mais violência
destruindo vidas, moradias, pousadas, partes de cidades; espalhando
medo, insegurança, morte e sofrimento. O ano chegou com fortes
enxurradas que alagaram muitas ruas de lama e de sangue. As águas
arrancaram em poucos minutos pedaços de asfalto e chão
de terra batida, derrubando e levando partes de casas, de prédios,
de escolas e de pessoas como se fossem barquinhos de papel flutuando
nas águas turvas da correnteza. A natureza entrou em pane. É
fato e não delírio.
Os
jornais não têm noticiado outra coisa. O mundo está
voltado para as tragédias climáticas. William Waack começa
o Jornal da Globo de cenho cerrado com o seguinte pronunciamento: “o
medo agora vem do céu”... A previsão de tempestades
importantes no início de 2010 tem alarmado os moradores do Rio
de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul e Minas Gerais. Um deslizamento
de terra soterrou uma pousada na Ilha Grande, em Angra dos Reis, no
litoral sul do Rio de Janeiro. Mais de cinquenta pessoas morreram soterradas,
na cidade e nas ilhas. As chuvas também ocasionaram o desabamento
da ponte do Rio Jacui no Rio Grande do Sul causando mais vítimas.
Algumas
tragédias climáticas podem ser prevenidas antes de acontecerem.
Quais medidas poderiam ser tomadas? Uma política de planejamento,
explica uma especialista. Novamente as políticas: prevenir antes
de remediar. Os gastos financeiros em casos de tragédias ocasionadas
por acidentes climáticos severos são exorbitantes. O desgaste
emocional dos sobreviventes irreparáveis. Em caso de morte em
escala maior não há remédio e sim a desculpa esfarrapada
das autoridades públicas. A culpa sempre vem de cima para baixo.
O Governo culpa o Estado que culpa a cidade que culpa o morador da região
(que construiu em uma área de risco). – “As autoridades
foram notificadas e tinham que despejar os moradores das áreas...”
Sim, a corda sempre se arrebenta do lado mais fraco e esse jargão
popularíssimo continua valendo em nosso país, desgraçadamente.
Esse tipo de tragédia pode ser alertado pelo satélite
GOES-12 (aparelho que emite alerta de catástrofes climáticas)
que cobre a América do Sul a cada trinta minutos. Porém,
a NOAA pode optar por imagear somente os Estados Unidos em casos de
tornados, furacões ou tempestades severas naquele país.
Nessas circunstâncias as imagens da América do Sul serão
garantidas gratuitamente a cada 3 horas por acordo com a Organização
Mundial de Meteorologia. Nesse caso o Brasil corre o risco de ficar
na mão.
No
país mais pobre e castigado do Caribe, um terremoto em uma escala
de 07 graus de magnitude destruiu prédios e grande parte da cidade
de Porto Príncipe (tragédia imprevisível). O país
foi devastado e o caos impera. Pessoas alarmadas e em estado de incredulidade
caminham sobre os escombros e dormem nas ruas a espera de socorro. Os
sobreviventes choram a morte de seus entes queridos. Outros choram de
dor, de fome e de sede. Outros choram ao ver parte de seus sonhos dizimados
em uma nuvem de poeira. Vidas engolidas pelos escombros. Vidas encharcadas
de sofrimento. Vidas brutalmente dilaceradas. O que restou é
a incerteza... Estima-se que mais de 50 mil morreram na catástrofe
mais violenta dos últimos duzentos anos no país. Os olhos
e os corações do mundo estão voltados para o Haiti.
Nesses casos a ação de solidariedade de diversos países
para ajudarem o país, me faz ter esperança. Esperança
de um universo melhor e não de um futuro catastrófico.
Esperança de que os países se unirão não
apenas nos momentos de salvar vidas, resgatar corpos e ajudar a reconstruírem
um país em catástrofes de dimensões gigantescas.
Mas também para preservarem a natureza, evitando ou minimizando
a reincidência de muitos acidentes climáticos, para que
a vida de todos os seres terrestres possa fluir harmoniosamente junto
com seus sonhos e esperanças de construírem um mundo melhor.
Enquanto houver vida, a esperança não morre.
Épocas
Andreia
Donadon Leal
Há
época de escutar pingos de chuva repicando no chão, de
preferência na hora de dormir. O toque de gotas, dependendo do
estado de espírito (que não sejam os temporais, as trombas
d’águas...) lembram canções de dormir. Acordes
de sinfonias para os ouvidos, vida para as plantas e plantações.
Há época de brincar na porta de casa com os colegas de
pique esconde, rouba-bandeira, peteca, bola, bicicleta. Há época
em que até os irmãos adolescentes e parentes mais velhos
se misturam com a molecada na rua para brincar.
Há
época de outono – renovação de flores e acontecimentos;
verão – céu tomado de azul, sol imperioso e paixões
imprevistas; primavera – despontar e desabrochar de flores e plantas;
e invernos esquentados com fogueiras, caldos, chocolates e canjicas
nas barriquinhas das festas juninas. Há época de gincanas,
festivais de música, da rainha da pipoca e do rei do amendoim
e da garota da escola. Há época de acordar cedo, tomar
banho, fazer o desjejum e vestir o uniforme do colégio. Há
época de família completa: pai, mãe, irmãos
e parentes em festas de aniversários, final de ano e almoços
de domingo.
Há
época de censuras, covardias, inseguranças, repressões,
desempregos, pobrezas, falta de dinheiro e de oportunidades; de epidemias
e de doenças escabrosas. Há época de descobertas
importantes da ciência e da tecnologia. Há época
em que a notícia de ontem vira história. A notícia
dos acontecimentos vem em tempo recorde, de preferência alguma
desgraça via satélite, para chamar e chocar a opinião
pública: escândalos, violências, mortes, missões
com finais trágicos e intervenções da polícia
mal-sucedidas...
Há
época para o primeiro beijo, para a primeira paixão, para
a primeira noite de amor e para o primeiro desapontamento amoroso. Há
época para o choro, para a dor de cotovelo e para a primeira
fossa. Há época de amores não correspondidos, tristezas
e incertezas...
Há
época para viajar, colocar a mochila nas costas e o pé
na estrada para conhecer outras plagas. Há época para
a primeira formatura, para a primeira comunhão, para o primeiro
casamento (talvez o único); para o primeiro filho, para os outros
filhos ou filho algum; para os primeiros netos e para os casamentos
que não deram certo, a primeira separação...
Há
época também imprevisível pela mente humana, pelos
orixás, pelos pais de santo e pelos paranormais. Época
de incompreensão e não aceitação dos fatos
inexoráveis da vida: a morte e a decrepitude do corpo. Época
de revolta com as ações de alguns seres que não
sabem conviver com outros seres humanos: pedofilia, estupro, covardia,
assassinatos, roubos e corrupção.
Há
época para agonias e para esperanças; para o início,
para o meio e para o fim do ciclo e continuação por outras
gerações que passarão por momentos previsíveis
e imprevisíveis pela ciência (relembrando um trecho magistral
da crônica “Júlio Verne” de Olavo Bilac –
“... nós somos os espectros de outros homens, aquele velho
que ali vem coberto de cabelos brancos, vai na escala das agonias e
das esperanças, ser continuado e prolongado por aquele menino
que passa por ele sem o ver, sem suspeitar que acaba de acotovelar a
sua própria personalidade futura”...) Há época
em que a nostalgia irromperá nossas lembranças e os nossos
sonhos. Há época de constatar que fomos felizes e tristes
em épocas distintas da vida.
Há
época de paz, de guerra, de amor, de desamor, de justiça,
de injustiça e de esperança. Há época em
que saberemos que é contra-indicação da vida, desistir
de continuar o caminho de cabeça erguida e pés seguindo
às trilhas da estrada, desviando-se das curvas perigosas, das
estradas escorregadias, mas sem fugir ou pular os obstáculos
(não fuja deles, vença-os!).
Esquecimentos
Andreia Donadon Leal
Há
remédios para esquecimentos súbitos? Esquecimentos banais,
de apanhar a roupa no varal, deixando-as na tempestade; de conferir
os documentos, principalmente a carteira de motorista e de repente ser
abordado em uma blitz; de pagar o cartão de crédito, de
abrir as correspondências e assim ser surpreendido ao fazer uma
compra, pois seu nome foi incluído no SPC. Que “carão”
na hora em que a vendedora, com um sorriso amarelo, fala:
-
Seu cartão e seu cheque não foram aceitos. Tivemos que
consultar o Serviço de Proteção ao Crédito
e seu nome está constando em nossos dados. Sinto muito!
Esquecimentos
reversíveis, mas mesmo assim, estressam nosso dia-a-dia; a correria
desenfreada, o acúmulo de funções para dar conta
do recado. Não há corpo e mente de ferros que suportam
excessos: compromissos, agenda lotada, multiplicidade de afazeres. Até
a máquina, se sobrecarregada, funciona mal, dá defeitos.
Levantar cedo, acordar os filhos para a escola, preparar o desjejum,
tirar o carro da garagem, deixar o filho mais velho no colégio,
o outro em uma creche e ainda ter tempo de chegar pontualmente ao trabalho.
Os minutos e os segundos têm que ser precisos e não podem
ser modificados. O trajeto é contínuo e a mente está
treinada para isso. Na hora do almoço: buscar os filhos, levá-los
para a casa; almoçar, tudo milimetricamente cronometrado. E por
aí vai; a rotina massacrante, fazendo-o correr no ritmo de atletas,
com um diferencial, você não é um atleta. O corpo
sente; a cabeça, às vezes, chega a uma carga de estresse
tão grande que além dos esquecimentos banais, surgem alguns
que jamais poderiam aparecer.
“Uma
mãe esquece o filho na escola. Um pai esquece o filho em um carro”.
Alguns esquecimentos viram tragédia e pesadelo. Essa semana a
primeira notícia de um jornal televisivo: “hoje um bebê
de seis meses morreu dentro de um carro. A mãe esqueceu-se de
tirá-lo e só lembrou após cinco horas. Por quê?
Por que mudou a rotina. Ao invés de deixar o filho mais velho
por último no colégio e seguir para o trabalho como de
costume, o trajeto foi invertido. O bebê morreu asfixiado e com
queimaduras”... Esse não é um caso isolado no país.
Não nos cabe julgar o esquecimento da mãe. Ela carregará
essa dor lancinante para o resto de sua vida. O que podemos evitar é
essa correria alucinante, brutal e sem paradas. Esquecimentos todo mundo
tem e não cabe a ninguém atirar a primeira pedra. A multiplicidade
de funções devido às necessidades financeiras e
outras podem afetar nossas ações diárias, nos fazendo
correr cada vez mais, ficar mais automatizados como robôs ou um
GPS e esquecer-nos das adaptações de que foram feitas
e pensadas ontem mesmo. Aí está o perigo, quando somos
obrigados por uma fatalidade a ter que parar bruscamente a correria
e a perceber que estávamos tão robotizados e cegos que
nos esquecemos de apertar a tecla “modificar”, ir mais devagar,
pois o mundo não vai cair em nossas cabeças, se caminharmos
com mais cautela e atenção, quando nossa rotina sofre
mudanças repentinas, quem sabe algum atraso no trabalho ou nos
compromissos. Inadiável, a vida ou a morte?
Chão de Cimento Encerado
Andreia
Donadon Leal
Sem
contestações, destino... Virar poeira cósmica,
lixo ou alimento de vermes. Incorruptível tropa de mortais. Os
acordes sinfônicos que tocam nos ouvidos acariciam, o Réquiem
k.626, mozartiano, para ninar a marcha fúnebre. Que melodia é
esta? Ora lírica, ora austera... “Réquiem aeternam
dona eis, Domine”. Descanso! Exigente ou simplesmente imbecil.
Asseverações... Transparecer certo esgotamento de viver
nem quatro décadas. O corpo brada: descanso. Exaustão
triplicada com afazeres inúteis. Comer todo tempo... Sentir saudade
da criança que andava descalça pelas ruas afora, arrastando
o casco grosso que protegia a sola dos pés. Gargalhar com piadas
sem graça. Sentir falta de si mesmo. Levantar da cama de solteiro,
esticar o lençol, dobrar a coberta e colocá-la no guarda-roupa.
Do cheiro de café passado na cozinha pequena de um pai com caneca
cheia, mão esticada e sorriso tímido nos lábios.
Pai é assim mesmo. Passa café todas as manhãs e
tardes. Infeliz quem não tem a caneca repassada... Distante,
longe e cansado. A saudade bate forte; rever a cena e sentir o cheiro...
Sentir falta da casa desarrumada de manhãzinha. De vassoura na
mão varrendo pacientemente os cômodos empoeirados e sujos
com fios de cabelos embolados nos ciscos. Encher o balde de água
com desinfetante e amaciante. Passar pano no chão de cimento
grosso. Vez ou outra, vontade de chegar perto do pai e pedir um chão
de madeira para encerar. Música estridente e incompreensível.
Ora movimentar as ancas com a vassoura na mão ou fingir tocar
guitarra. Bobagem, quanta bobagem! Mãe fala: passa cera vermelha
no cimento que o chão ficará colorido e pare de dar este
xouzinho patético. E era verdade mesmo. O chão da casa
era vermelho encerado e escovado. Em casa de escovão sem uso,
escondido no porão. Sentir saudade das brincadeiras dos irmãos
ainda crianças, que quase estoura as veias do coração
de tanto sentir... Cresceram e envelheceram, uns de cabelos grisalhos,
rugas fincadas no canto dos olhos e da boca e dobras no pescoço.
Os sobrinhos que crescem numa fração de tempo. Sentir
saudade da árvore de natal montada na sala de casa e bolas metálicas
e estrelas coloridas e bilhetes pregados. Do sapatinho de crochê
que só mães de outrora faziam para cada filho colocar
na janela no dia de Natal. Era pequeno o sapato, as mães diziam.
Por quê? Porque Papai Noel tem que presentear todas as crianças
do mundo. Um presentinho para cada menino. Saudade da música
que saía da vitrola e os meninos dançando e pulando no
cômodo, pai e mãe mirando amorosamente as peripécias
das crias. Sentir falta dos dias chuvosos, com relâmpagos estourando
trovões nos ouvidos e a criançada agarrada na barra da
saia da mãe. Sentir falta em andar de mãos dadas com os
irmãos pela rua em dias de domingo e do cheiro de broa de fubá
com canela ou pudim de pão. Dos ralhos e beliscões da
mãe e do pai, quando chegava em casa depois da hora. Sentir...
Filho que sente falta do pai a acordá-lo cedo para ir à
escola e das histórias da avó. Até da imbecilidade
e falta de maturidade adolescente. Da crise nervosa das meninas quando
chega à primeira regra, como dizem ainda algumas mães.
Das horas conversando com colegas de escola sobre o primeiro e gosmento
beijo; da festa de quinze anos e febre da onda das debutantes. Será
que ainda existem debutantes? Crise de adolescentes, sim. Falta da falta
de experiência, do primeiro emprego, da primeira entrevista. Até
da primeira transa, primeiro contato com sexo, adolescente, menina ainda:
traumatizante, dolorido e às pressas num banco de carro. Uma
experiência a mais ou a menos... Sorte ou falta... Não
importa, pouco importa. Memoráveis incidentes ou melhor acidentes.
Não vem ao caso, catastrófico. Sentir falta de não
pensar muito, não querer mais, mais, muito mais e ainda mais...
O caminho sem retorno.... Se tivesse... Um chão de cimento grosso
para encerar e outra música para ouvir, que não o Réquiem
K.626.
Fragmentos
Andréia
Donadon Leal
Dia
de domingo é enfado enfadante, ou mesmo, redundante. Sem nenhuma
inspiração intelectual ou mesmo artística, esbaldar
de comida engordativa, neologismos sem neo, não interessa se
a palavra ofende os olhos do leitor repleto de academicismo. Esta maldita
segunda-feira infernal está com pé quase no dia de descanso.
Amanhã, tristemente, segunda-feira, chefe de cara amarrada, autoritário,
nervoso, mais calvo e burro com perdão aos animais. Segunda-feira
deduz que o chefe é mais desprovido de conhecimentos que você...
É mais desprovido de bom-senso, é mais desprovido de humanidade;
é mais desprovido de vocabulário, é mais desprovido
de idéias, é mais desprovido que todos os seres desprovidos.
Será que você é o ser mais desprovido de chefe desprovido?
Com os colegas de trabalho, diga: somos desprovidos...
Engole o tédio ácido que corrói lentamente os acordes
estridentes vindos da televisão e showzinho patético de
dia de domingo: os terríveis e massacrantes programas de auditório.
Se bem que dia de semana, a programação muda de roupagem,
entretanto não ganha muito conteúdo, talvez mais descarrego
de desgraças. Vê a cara de satisfação do
repórter ao frisar: diversas pessoas foram assassinadas em chacina!
Roubaram, mataram! Não precisa ser pobre para roubar, descobre?
Miserável, abandonado a própria sorte e desesperado. Rico
e engravatado rouba e rouba descaradamente, inteligentemente. Não
fica preso. Se safa, na boa. Quanto mais sangue e escândalos,
mais lucros. Tem medo de ligar o aparelho de televisão e se deprimir.
Depressão fica sarada com psicanalistas, psicólogos e
psiquiatras... Tem medo de chegar perto da janela e tomar uma bala “perdida”
propositalmente de alguém que atira bala de chumbo por todos
os lados. Tem medo de tudo e de todos, até da sombra.
Com
pote de sorvete na mão, os pensamentos voam para além
da tela de plasma. Pasmo de aflição não dicionarizada
da verborragia inefável de querer dizer nada, fazer nada, sentir
nada, tirar o time de campo. Uma expiração, ajuda? Um
suspiro enfastiado limpa o pulmão colorido pela fumaça
de nicotina. Se bem que parou de fumar há algum tempo: um punhado
de meses secos de nicotina. O aroma da comida atraí mais. Entreter
a boca com alguma coisa ao invés de soltar ares de poluição.
Os
moleques não brincam com a bicicleta na rua. Não sentam
no passeio com mais molecada e ficam a toa ou soltam pipas ou jogam
bola ou ficam na rua mesmo jogando conversa fora. Estão encarcerados
dentro do quarto, com olhos vermelhos de mirar a tela, com dedos teclando
com ditos amigos virtuais. Informatização, globalização,
flexibilização, on line, automatização,
site, telemarketing, etc... Internet-vídeo-celular-tele-pizza-fax-email...
Nem um chio, sussurro, miado do gato que ninguém mais olha...
De lado, abandonado, depressivo. O cachorro jogado no quintal olhando
a lua. Perplexamente, o cachorro olha a lua, talvez converse com ela
ou namore-a. Sonha? Quem sabe dizer se cachorro sonha, medita? Mais
racional? Mais zem? Na dele, na boa; de namoro com a lua.
Dia
de domingo é enfadante? De novo? Se bem que começamos
todo dia numa ciranda sem música, ou com música lancinante
nos ouvidos. Os ouvidos não têm noventa anos, e é
obra de Duchamp. Percebe que faltam algumas horas para o domingo findar
e o calendário virar, com nostalgia. Domingo é chato,
medita?
Domingo
é dia de abandono de pensamentos e ações mecanizadas,
voltar para dentro de seu mais íntimo eu. O corpo despejado de
qualquer jeito em frente à televisão, os pensamentos ganhando
sentimento e o cachorro do lado de fora namorando a lua...
Sonhos
Andreia
Donadon Leal
Tive muitos sonhos ousados, imortalizados
pela memória como se fossem pequenas pastas de arquivos. Alguns
adormeceram na impossibilidade de concretização; hoje
fazem parte de um arquivo morto que podem ser consultados ou reestruturados
a qualquer momento. Às vezes os tiro do ostracismo para rever
valores, erros, desejos, frustrações ou os comparo com
os sonhos atuais.
Um dos mais inesquecíveis era
a obstinação exacerbada de ser professora. Hoje me pergunto:
por que esse sonho me perseguia tanto? Influência de minha mãe
ou de meus irmãos? Influência de alguém? Ou influência
minha? Por que era tão importante? Simplesmente pela razão
de ter um dos papéis mais nobres e importantes em uma sociedade.
Sim, queria ser professora e era vontade minha! Ser como os respeitados
mestres nos tempos áureos de escola primária, de magistério,
de universidade e de pós-graduação. Tive bons mestres,
uns geniais e alguns nem tanto...
Voltando aos sonhos; sonhei em ser mãe
e não fui. Sonhei em ser professora e fui por um tempo ínfimo.
Sonhei em me casar e passar o resto dos dias criando filhos, se os tivesse;
cuidando da casa, do marido e um trabalho de meio expediente. Tive uma
casa sem filhos, um casamento feliz e não moro na cidade de onde
vivi a maior parte da minha existência. Um de meus mais ousados,
digo ousado, pois para os padrões financeiros de uma moça
do interior de família pobre, como muitos diziam e dizem até
hoje, era dar o passo maior que as pernas: fazer um curso superior em
outra cidade. Sonho distante. Sonhei incontáveis vezes dormindo...
Sonhei acordada sentada na varanda da casa de meus pais no interior
de Minas: chegar ao céu e contemplar as estrelas lá de
cima também. Uma paixão indescritível pelo céu
fazia parte de meus devaneios e momentos de relaxamento. Olhar, contar
as estrelas e ver outra luz flutuar vagarosamente na imensidão
do espaço estelar. Sonhos são impalpáveis, nunca
deixam de ser sonhos; alguns mágicos, outros mais reais, mas
difíceis de se concretizarem e nunca perdem seu encantamento,
quando são almejados pelo coração.
Sonhar sonhos ousados ou simples. Sonhar
sonhos que povoam as ideias dos seres humanos que lutam com dignidade,
perseverança e esforço para concretizá-los. Sonhar
sonhos que se tornam ou não em realidade, sem desistir ou se
deprimir. Sonhar sonhos sem ultrapassar horizontes ou o caminho do próximo...
Sonhar sonhos que nos colocam no lugar onde as mãos e os pés
podem alcançar, sem nos tolher de subir mais um degrau ou dar
mais um passo, sem esticar demais as pernas ou ultrapassar em alta velocidade
ou invadir o caminho de outrem. Sonhar sonhos e saber que cada dia eles
poderão ser reestruturados ou arquivados. Sonhos não envelhecem
e sempre devem fazer parte de nossos pensamentos, ações
e metas de vida. Sonhar sonhos e nunca deixar de sonhá-los.