Jornal Aldrava Cultural
ISSN 1519-9665
S B P A - Francisco Nunes
Artes Visuais
Cartas

Francisco Nunes

Sociedade idealizada por Andreia Donadon Leal
Logo criada por Gabriel Bicalho

Francisco Nunes (talvez) por ele mesmo
Eu ficava em pé, ao lado de meu pai, no banco da Rural Willys, observando tudo. Então, vi sobre um prédio aquele símbolo mágico, fascinante, cheio de significado, de sonoridade. Apontando para ele, disse a meu pai: “Eme, de Mesbla!” Somente tempos depois, no finado Colégio Cruzeiro do Sul, em Porto Alegre, é que eu seria formalmente apresentado ao alfabeto e às infindáveis combinações de letras em frases, em parágrafos, em histórias, em livros… Livros!
A biblioteca de meu pai era maravilhosa! Quantos títulos, quantos mistérios, quantos textos proibidos para mim, quantos volumes que me chamavam à exploração, quantas histórias que me faziam viajar, conhecer mundos e mentes, sonhos de outros sonhadores como eu! Com dez anos li Deuses, Túmulos e Sábios, de C. W. Ceram. Decidi, então, ser arqueólogo. Mas outros livros me fizeram querer ser astronauta, contrabandista, mergulhador, detetive, pastor, jornalista, policial…
O resultado é que os livros me fizeram um fazedor de livros. Hoje sou editor, tradutor, revisor, ghost-writter. Mas sempre fiz livros para outros. Tenho um velho/atual sonho: escrever meu livro, com os tantos de mim. Ele está prestes a abandonar o ninho seguro da gaveta (e isso não é apenas uma figura de linguagem). Outros ainda estão lá, sendo chocados, tímidos, receosos.
Sua gaveta está em xn.blog.br.Para conversar com ele, escreva para nunes.endel@gmail.com.

 

Aldravias de Francisco Nunes (São Caetano do Sul, SP)

10 Aldravias postadas em 12 do 12 de 2012

ato
de
bravura:
reconhecer
ser
covarde
eu
grito,
mas
nin
    game
over
dormir
de
conchinha
sonhava
o
caracol
se
   mente
de
   pura
vera
      cidade
aldravia:
te
digo
uma
em
seis
vi-O
depois
de
tanto
tempo
morto
como
não
crer
se
Ele
é?
em
essência
sua
aparência
diz:
nada!
o
salva-vidas
morreu
afogado
na
tristeza
entraram
na
clínica
de
aborto.
Morreu


Primeira postagem

O
primeiro
amor
nunca
se
emudece

minhas
dores
me
fazem
desagradável
companhia
à
sombra
descansa
o
sol
suado
silenciosamente
despertou
o
amor;
envergonhada,
desculpou-se
repousa
aqui
um
pouco,
viajante
louco
demasiado
cedo
foi
avaliado:
medo
dói
a
luz
acende:
fantasmas
fogem
nus
outro
dia
chuvoso:
saudoso
sorria
Juvenal
um
piquete
desalmado:
QUERO
CONTINUAR
IGNORADO!

não
enviei
condolências;
preferem
minha
ausência

monstros
destruindo
Tóquio:
memórias
de
infância
toda
mentira,
na
internet
é
verdade
Aldraviano
Campos
Fortes,
poeta
sonhador
contumaz
havia
beijos
ao
fim,
sem
fim
aldravio
palavras
aldrávicas:
loucas
aldravices
serenas
vivia
voando
entre
verdes
pássaros –
alvejado
ilusões
matinais,
pesadelos
diurnos,
choros
noturnos
esperando
descanso
encontrei
desespero.
desisti,
portanto
misericordiosos
homens
meditam
entre
mendigos
moribundos
a
cama
recebe
os
corpos.
solidão

Aldravipeias de Francisco Nunes
(postada em 19/09/2013)

Olhos nos

1
abrem-se
convictos
da
manhã
que
surge

2
vagueiam
cheios
de
respostas
sem
perguntas

3
olho
e
vejo-te
olhas-me:
não
sei

4
olhos
nus
olhos
nos
olhos
nós

5
na
janela
que
me

vejo-me

6
te
vejo
em
meus
olhos
tristes

5
mergulho
em
teus
olhos:
afogo-me
aguazul

6
e
tão
tonto
tento
então
rever-me

7
olhares
que
fogem
maltratados
de
abandono

8
os
OlhOs
Olho-Os
vazi0s
num
s.i.l.ê.n.c.i.o

9
insisto:
olhe-me
como
outro
que(m)
sou(?)

10
(temo
olhar
e
de[ver]
te
amar)

11
“nunca
vi
ninguém
assim!”
ah,
sim…

12
– vi-me:
a
dor
ampla,
nunca
vista

13
antevejo
meus
olhos:
lágrimas
e
ninguém –

14
olha-me
com
outros
olhos:
os
teus

15
meus
olhos
leais
lamentam:
não
mais

16
vejo-te
como
nunca
– e
sempre
foste

17
vemos
o
que
vi(fo)mos:
foi-se
insaudoso

18
vemo-nos
como
de
novo
primeira
vez

19
invisível
ah!
mar
de
amor
– olhares

20
cúmplices
mãos
dadas
vamos
vemos
somos

Mim

sou

1
(im)preciso
     ser
assim

nós
2
solidões
lado
      a
        lado

acordo
às
3:
sou
ainda
mesmo?

de
4
procuro
respostas
(in)existentes:
      [eu?]

os
5
dedos
apalpam
minha
inexistência

corro
para
alcançar-me
antes
de
vo6

escolho
7
livros
(d)escrevendo
quem
sou

alguém
af8
pelo
encontro
comigo
          – serei?

vida,
re9-me!
o
espelho
diz:
igualainda

10esperado
tateio
meu
rosto:
quem
és?

sino
de
br11
informa:
durma
desesperada’mente

minha
over12
de
perguntas
silencia
urrando

temo
13
badaladas
inquirindo
de
mim

caminho
por
14
q-u-a-d-r-a-s
fugindo
tr.ôp.ego

na
15ª
desisto:
sempre
soufuiseria
eu

tive
16
u,m
dia
… bruta
saudade

pouco
vivi
os
17
tentando
ser-não-ser

ind…epend…entes
         18
      em
           mim
                  prisões
infant~adultas

impreciso
aos
19
preciso
saber-me:
quem?

20
dizer:
sim,
sou
eu
assim

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



 

Comentário do autor. A poesia é desassossegada, inquieta, bicho feroz, que olha com desconfiança para limites, prisões. Ama inovação, refazer-se, repensar-se, propor-se formas para, então, desafiá-las, enfrentá-las, empurrá-las para que adotem outra forma. Maravilhosa a proposta da aldravipeia! Amplia a aldravia e também desafia o poeta a poetar de seis em seis até produzir uma sinfonia de vinte movimentos aldrávicos coerentes, interligados pelo fio temático, mensageiros sextavados da mensagem única.




 

 

Página criada em15 de dezembro de 2011
Editor: J. B. Donadon-Leal